Memória Olfativa

Ele pedia pra eu escolher seu perfume, e eu pegava sempre o mesmo.

-De novo? Escolhe outro!
-Mas é o que eu mais gosto.
-Você não conhece os outros, como pode saber?
-Eu te conheci com esse cheiro, então é o que eu mais gosto.

Toda lembrança tem um cheiro, e quando você sente ele outra vez, vai lembrar daquele lugar, daquela pessoa, daquelas férias. E não vai poder fugir. Se o desodorante dele entrar no metrô você vai olhar em volta procurando-o. Se você entrar num restaurante e sentir o cheiro daquele bolo que comeu na casa da vó, aos 5 anos, é capaz dos olhos se encherem de lágrimas e o peito de saudade.
Um cheiro pode ser toda uma cena, todo um ano, toda uma vida.

2 comments

  1. t4yra · December 16, 2009

    Certeza!!!

    Até hoje, cheiro de chá mate quentinho me lembra o Sonho Mágico, escola em que fiz o prezinho e que servia chá com pão com requeijão na hora do lanche. Meu irmão também acha que o cheiro de chá lembra o Sonho Mágico… =)

    A memória olfativa é a mais forte de todas que temos… =D

  2. Marcello Jun de Oliveira · December 16, 2009

    Memória é um processo complexo, que se desenvolve em camadas múltiplas e circuitos neuronais complexos. A simples evocação de memórias alteram-nas por filtros e conexões neuronais novas. Portanto, não existe memória “mais forte” ou “menos forte”!

    Não obstante, há memórias “mais emocionais” e “menos emocionais”!

    Um estudo realizado por uma neurocientista de Brown demonstrou que, diferente de memórias evocadas por estímulos táteis, visuais, e auditórias, as memórias olfativas apresentavam inequívocos componentes emocionais e afetivos.

    http://www.jstor.org/pss/1423672

    Mais recentemente, neurocientistas de Israel demonstraram que estímulos olfativos são processados paralelamente no Hipocampo (responsável pelo armazenamento de memórias de longo prazo), enquanto memórias visuais e auditivas são processados inicialmente no Tálamo (responsável pela organização do tráfego de informações ao Córtex).

    http://www.cell.com/current-biology/abstract/S0960-9822(09)01857-0

    Como era de se esperar, estímulos negativos aumentavam significantemente a fixação e a evocação de memórias.

    Por isso lembranças associadas a cheiros são tão “vívidas” e vêm tão “fácil”. O olfato estimula o “centro” de memória, enquanto outros sentidos são primeiramente processados no Córtex para depois se unirem no “centro” de memória.

    Também por isso é mais fácil lembrar do cheiro de uma avó falecida (estimulos negativos, e.g. dor) ou de um ex-namorado importante.

    Do ponto-de-vista evolutivo, odores ofereciam para nossos ancestrais muito distantes as melhores dicas sobre alimentos mais nutritivos e predadores mais perigosos. Os demais sensores evoluíram bem mais tarde, e receberam tratamento diferenciado.

    Tudo isso parece muito menos romântico que o cheiro evocado por um primeiro beijo, ou uma primeira paixão, ou uma infância idílica. Contudo, pesquisas em terapias neuro-moduladoras para recondicionamento prometem avanços para aflições dísparas, desde obesidade, até um coração partido.

    E pra mim isso é bastante emocionante!

    PS – Manter uma identidade olfativa idiosincrática é um excelente método para fixação emocional (i.e. fidelidade). Seu namorado faria bem em escutar seus conselhos! :-)

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