Crenças, crenças, negócios à parte

Não é por que eu sou atéia, mas acho que religião e negócios não deveriam andar lá muito juntos.

Sei que se você tem uma fé, e se você acredita que isso fez você alcançar certos feitos, como por exemplo sua loja fazer sucesso, você quer mostrar isso como puder. Mas, como tudo na vida, isso também tem limite.

Uma coisa é um punhado de santinhos em cima da bancada, um provérbio no verso do cartão de visitas, uo até uma cruz na parede. Tudo isso é aceitável. Outra coisa é fazer o cliente a passar pelo constrangimento de receber uma benção, enquanto realiza uma compra.

Passei por isso há alguns dias, quando comprava vestidos de festa. Fui num ateliê de alta costura, um lugar sofisticado, em que as mulheres vão para comprar lindos vestidos para ocasiões especiais. Estava com minha mãe e uma senhora, amiga da família, eu atéia, minha mãe meio católica não praticante, meio agnóstica, e a senhora católica. Conosco, a dona do ateliê e sua assistente, as duas evangélicas.

Vestidos comprados, roupas provadas, barras marcadas para os ajustes, só falta pagar para ir embora. Ou quase. Estava eu no meu canto, me vestindo, com meu super conhecimento em religiões de forma geral, quando a designer diz que a senhora iria confessar Jesus. Fiquei sem entender o que era aquilo. A designer e sua assisente ficaram ao lado da senhora, todas fecharam os olhos, e elas passaram a pedir que Jesus a protegesse, a iluminasse e abençoasse. Então foi a vez da minha mãe e claro, a minha. Na minha vez, fiquei sozinha na sala com as duas evangélicas e elas me perguntaram se eu acreditava em Deus. Não consegui mentir. Então ouvi que havia um buraco em mim que só Jesus poderia preencher, que eu nunca seria feliz, que eu ainda o encontraria e muito mais.

Depois das bençãos, fomos embora, e eu sem querer nunca mais voltar. Não me importa se os vestidos são lindos ou não, passei por um dos momentos mais constrangedores e desconfortáveis da vida [e não foram poucos] e não quero mais passar por isso – ainda mais que agora eu sou a pobre atéia que precisa encontrar o caminho.

Fui lá encontrar um vestido, saí de lá com uma benção.

Eu deveria ter reagido como a jornalista que respondeu ao taxista, mas sou boba e não fiz. Saí pensando no dia que as pessoas, evangélicas, judias, atéias ou hare krishnas vão aprender a dissociar seus trabalhos [e pelamor seus governos] de suas crenças, e todos viveremos felizes e nos respeitando.

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